Considerações
(continuação de "Ao balcão de um bar muito mal iluminado" e "Frenesi")
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Não posso dizer que tenha achado o sítio demasiado estranho. Não, de todo. Aliás, como podia ser estranho um sítio onde parecem tão semelhantes uns aos outros? Será, talvez, um sítio “normal” para aqueles que lá se movem. Cada mancebo igual a todos os outros, cada donzela a todas as demais. Poder pelo número? Conforto entre iguais? Ignoro. Mas andar por lá era de facto desorientador. Pergunto-me até este momento como distinguirá um desses rapazes qual das duas meninas de costas é a sua namorada. Subtis diferenças na cor do cabelo? Tabuletas?
Claro que em certa medida isto sou só eu a ser deliberadamente desagradável. Como é evidente, lá dentro não são todos todos iguais. É frequentemente possível distinguir indivíduos quando se ignora o que vai saindo daquelas bocas e examina certos detalhes da indumentária.
De qualquer forma lá estava eu, movido pela curiosidade que acompanha as tarefas em ambientes estranhos. Uma vez encarregue de vigiar um certo parasita, não perdia nada em observar os seus hábitos e, onde tão adequado quanto possível, talvez até os experimentar.
Ali estava então, portanto, ali naquela pequena catacumba. Não que passasse completamente despercebido, pois ao negro tão oficial da minha farpela faltava a comum parafernália de adornos em couro ou metal – diferença que acabava sempre por chamar alguma atenção.
Mas lá fui conseguindo algum sossego, pelo menos até alguém vir a cambalear de algum inferno etílico e espetar o focinho imundo no meu Armani. Um trecho de música apanhou então o meu ouvido: “My wounds cry for the grave / my soul cries for deliverance”, cantava a voz de uma banda qualquer, e nos olhos embriagados do encharcado espectro reflectia-se um abandono bem relacionável com os versos que ouvia. Balbuciando desculpas com a articulação vocal de um mongolóide enquanto se apoiava em mim para não cair, agarrou-me o braço com força. Senti o sangue prestes a afluir de emergência aos membros quando o brilho metálico de garras refulgiu na ponta de vários dos seus dedos.
Afastando o medo irracional com a certeza lógica de que tudo não passava de baratos e rombos adereços da moda, de que não me poderiam fazer qualquer mal, lá evitei transformar o infeliz em farrapos - e a consequentemente necessária tragédia colectiva para encobrir o incidente.
Claro que nada disto transparecera aos olhos toldados do meu interlocutor. Em toda a sinceridade de quem é comandado por uma mente que o álcool faz fascinar por todo e qualquer pormenor, apenas lhe interessava certificar-se de que não havia causado mal nenhum com o seu desequilíbrio. Não que me irrite pedirem-me desculpa dez vezes, mas a atenção que atraía era muito desagradável. Os seus olhos continuvam a fitar os meus, procurando receosa mas ansiosamente traços de desagrado. Olhei-os profundamente e sussurrei, mais com a mente que com a boca, “que não fazia mal... que ele podia ir à sua vida... que pedisse um copo de água e sentir-se-ia como novo”.
E lá foi ele, análogo a um daqueles autómatos tão populares na minha juventude.
“I want to diiieeee” -- berrava a voz no sistema de som, o espectro sonoro posto todo à sua disposição pelo momentâneo silêncio dos instrumentos da banda. Na pista de dança, gestos bem elucidativos evidenciavam o quanto tal afirmação agradava à mole humana.
Acompanhavam o brado, abanando as cabeças com uma violência que eu juraria suficiente para desalojar os demónios que nelas habitam, uns interiorizando o desejo e outros procurando em tal afirmação o poder da energia que coisas tão radicais trazem consigo. Outros simplesmente não deviam querer ficar atrás e erguiam também as suas vozes para dizer algo que não sentiam, sem se assustar pelo macabro conteúdo das palavras.
Ridículo.
Jovens, todos eles, nenhum dando a cada batimento do coração o devido valor. A morte não é real. A morte nunca é real, nem mesmo quando já se viu alguém expirar perante os próprios olhos. A morte é uma entidade abstracta, impossível de consciencializar -- e às suas consequências -- enquanto o coração bate e os pulmões respiram. Não, nenhum sabia muito bem o que dizia... Apontasse-lhes uma adaga ao peito e mudariam de ideias num segundo. Não se podem levar a sério. No entanto, um pequeno número de indivíduos é um caso diferente. As suas vidas não lhes agradam, fizeram escolhas que acreditam não poder reverter e acontecimentos foram postos em marcha que lhes levam a mente a dar início à espiral tenebrosa, à sequência de auto destruição.
Virei costas e dei um passo para longe da pista, mas subitamente algo surgiu em frente aos meus olhos. Era a imagem mental de um segundo antes, com a minha atenção toda concentrada num ponto pouco antes ignorado. Uma rapariga que abrandando a dança e fechando os olhos, um sorriso rasgado e sentido a crescer nos lábios.
A música prosseguiu. Voltei-me de novo para a pista, procurando o motivo do meu alarme, que encontrei subindo a rampa de acesso num passo pausado sem pressa nenhuma. Ao passar por mim, os seus sentimentos transbordavam e eu conseguia apanhá-los como a borboletas despreocupadas. Uma luz perdida voou da pista para apanhar o anel de um dedo seu e um reflexo instantâneo brilhou na minha direcção. Um anel em forma de lua, ornamentando um dedo de uma mão que acompanha o andar da sua dona e sobe, sobe... até encontrar o raio de luz que lhe estava destinado e, por um momento, unir-se a ele num objecto único, radiante, refulgente com luz própria. Mas a mão queria descer, e, quase relutantemente, o anel teve que acompanhar. O raio de luz continuava lá, à espera do próximo movimento ascendente, mas o anel desceu e apagou-se de vez. Tornou-se escuro e fundiu-se com as trevas de que se rodeava.
A analogia com o que os sentimentos captados me diziam é notável. Em dois segundos o anel contou-me a história da vida da sua dona. A história toda, pois dela não iriam haver novos episódios após uma noite à qual não pretendia sobreviver. Contudo, parecia tão tranquila. Não se havia embebedado ou parecido aproveitar para últimas loucuras. Uma das borboletas que voou da sua cabeça disse-me que essa era uma decisão há muito ponderada, que perdeu o tom extraordinário. Como se deixar este mundo não fosse senão o próximo compromisso casualmente marcado numa agenda muito normal.
Não percebo estas criaturas.
Foi-lhes dado um mundo de luz e de calor, um mundo sem predadores e praticamente sem perigos, e que fazem eles? Afastam-se do sol, maldizem suas vidas e martirizam-se apenas e só pelo próprio martírio. Seres atormentados, donos de vidas miseráveis, que procuram avidamente razão para o suplício deles de cada dia, criando caos e desequilíbrio onde nenhum tinha que existir. Procuram a noite, o negrume, a escuridão, o frio, a treva. Maldizem a vida que vem do Sol e olham com desprezo para qualquer beleza que não a da noite. Idolatram estrelas e lua, parecendo oblívios à ironia de que a luz lunar que tão bela afirmam ser não passa de uma reflexão pálida da do Sol sobre uma superfície morta feita de cinzas.
Cruzes e pentagramas, uns para cima e outros para baixo, e uma miscelânea de ícones e símbolos adornam dedos, pescoços, pulsos e roupa. Bebem o que a ciência não explica com a sede de mil desertos, na esperança de se elevarem -- ou enterrarem, conforme a perspectiva -- mais que os outros, esses ignorantes que encontram prazer em se mover de dia e nada sabem de cultos para além das religiões corriqueiras.
Adoram o sobrenatural. O sobrenatural. Que pompa, que circunstância, que palavra tão sonora. Sonora e lamentavelmente ignorante. Como pode ser superior à Natureza algo que efectivamente existe nela? Não faz sentido.
Contudo, é uma palavra agradável.
...Faz-nos parecer mais poderosos.
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Não posso dizer que tenha achado o sítio demasiado estranho. Não, de todo. Aliás, como podia ser estranho um sítio onde parecem tão semelhantes uns aos outros? Será, talvez, um sítio “normal” para aqueles que lá se movem. Cada mancebo igual a todos os outros, cada donzela a todas as demais. Poder pelo número? Conforto entre iguais? Ignoro. Mas andar por lá era de facto desorientador. Pergunto-me até este momento como distinguirá um desses rapazes qual das duas meninas de costas é a sua namorada. Subtis diferenças na cor do cabelo? Tabuletas?
Claro que em certa medida isto sou só eu a ser deliberadamente desagradável. Como é evidente, lá dentro não são todos todos iguais. É frequentemente possível distinguir indivíduos quando se ignora o que vai saindo daquelas bocas e examina certos detalhes da indumentária.
De qualquer forma lá estava eu, movido pela curiosidade que acompanha as tarefas em ambientes estranhos. Uma vez encarregue de vigiar um certo parasita, não perdia nada em observar os seus hábitos e, onde tão adequado quanto possível, talvez até os experimentar.
Ali estava então, portanto, ali naquela pequena catacumba. Não que passasse completamente despercebido, pois ao negro tão oficial da minha farpela faltava a comum parafernália de adornos em couro ou metal – diferença que acabava sempre por chamar alguma atenção.
Mas lá fui conseguindo algum sossego, pelo menos até alguém vir a cambalear de algum inferno etílico e espetar o focinho imundo no meu Armani. Um trecho de música apanhou então o meu ouvido: “My wounds cry for the grave / my soul cries for deliverance”, cantava a voz de uma banda qualquer, e nos olhos embriagados do encharcado espectro reflectia-se um abandono bem relacionável com os versos que ouvia. Balbuciando desculpas com a articulação vocal de um mongolóide enquanto se apoiava em mim para não cair, agarrou-me o braço com força. Senti o sangue prestes a afluir de emergência aos membros quando o brilho metálico de garras refulgiu na ponta de vários dos seus dedos.
Afastando o medo irracional com a certeza lógica de que tudo não passava de baratos e rombos adereços da moda, de que não me poderiam fazer qualquer mal, lá evitei transformar o infeliz em farrapos - e a consequentemente necessária tragédia colectiva para encobrir o incidente.
Claro que nada disto transparecera aos olhos toldados do meu interlocutor. Em toda a sinceridade de quem é comandado por uma mente que o álcool faz fascinar por todo e qualquer pormenor, apenas lhe interessava certificar-se de que não havia causado mal nenhum com o seu desequilíbrio. Não que me irrite pedirem-me desculpa dez vezes, mas a atenção que atraía era muito desagradável. Os seus olhos continuvam a fitar os meus, procurando receosa mas ansiosamente traços de desagrado. Olhei-os profundamente e sussurrei, mais com a mente que com a boca, “que não fazia mal... que ele podia ir à sua vida... que pedisse um copo de água e sentir-se-ia como novo”.
E lá foi ele, análogo a um daqueles autómatos tão populares na minha juventude.
“I want to diiieeee” -- berrava a voz no sistema de som, o espectro sonoro posto todo à sua disposição pelo momentâneo silêncio dos instrumentos da banda. Na pista de dança, gestos bem elucidativos evidenciavam o quanto tal afirmação agradava à mole humana.
Acompanhavam o brado, abanando as cabeças com uma violência que eu juraria suficiente para desalojar os demónios que nelas habitam, uns interiorizando o desejo e outros procurando em tal afirmação o poder da energia que coisas tão radicais trazem consigo. Outros simplesmente não deviam querer ficar atrás e erguiam também as suas vozes para dizer algo que não sentiam, sem se assustar pelo macabro conteúdo das palavras.
Ridículo.
Jovens, todos eles, nenhum dando a cada batimento do coração o devido valor. A morte não é real. A morte nunca é real, nem mesmo quando já se viu alguém expirar perante os próprios olhos. A morte é uma entidade abstracta, impossível de consciencializar -- e às suas consequências -- enquanto o coração bate e os pulmões respiram. Não, nenhum sabia muito bem o que dizia... Apontasse-lhes uma adaga ao peito e mudariam de ideias num segundo. Não se podem levar a sério. No entanto, um pequeno número de indivíduos é um caso diferente. As suas vidas não lhes agradam, fizeram escolhas que acreditam não poder reverter e acontecimentos foram postos em marcha que lhes levam a mente a dar início à espiral tenebrosa, à sequência de auto destruição.
Virei costas e dei um passo para longe da pista, mas subitamente algo surgiu em frente aos meus olhos. Era a imagem mental de um segundo antes, com a minha atenção toda concentrada num ponto pouco antes ignorado. Uma rapariga que abrandando a dança e fechando os olhos, um sorriso rasgado e sentido a crescer nos lábios.
A música prosseguiu. Voltei-me de novo para a pista, procurando o motivo do meu alarme, que encontrei subindo a rampa de acesso num passo pausado sem pressa nenhuma. Ao passar por mim, os seus sentimentos transbordavam e eu conseguia apanhá-los como a borboletas despreocupadas. Uma luz perdida voou da pista para apanhar o anel de um dedo seu e um reflexo instantâneo brilhou na minha direcção. Um anel em forma de lua, ornamentando um dedo de uma mão que acompanha o andar da sua dona e sobe, sobe... até encontrar o raio de luz que lhe estava destinado e, por um momento, unir-se a ele num objecto único, radiante, refulgente com luz própria. Mas a mão queria descer, e, quase relutantemente, o anel teve que acompanhar. O raio de luz continuava lá, à espera do próximo movimento ascendente, mas o anel desceu e apagou-se de vez. Tornou-se escuro e fundiu-se com as trevas de que se rodeava.
A analogia com o que os sentimentos captados me diziam é notável. Em dois segundos o anel contou-me a história da vida da sua dona. A história toda, pois dela não iriam haver novos episódios após uma noite à qual não pretendia sobreviver. Contudo, parecia tão tranquila. Não se havia embebedado ou parecido aproveitar para últimas loucuras. Uma das borboletas que voou da sua cabeça disse-me que essa era uma decisão há muito ponderada, que perdeu o tom extraordinário. Como se deixar este mundo não fosse senão o próximo compromisso casualmente marcado numa agenda muito normal.
Não percebo estas criaturas.
Foi-lhes dado um mundo de luz e de calor, um mundo sem predadores e praticamente sem perigos, e que fazem eles? Afastam-se do sol, maldizem suas vidas e martirizam-se apenas e só pelo próprio martírio. Seres atormentados, donos de vidas miseráveis, que procuram avidamente razão para o suplício deles de cada dia, criando caos e desequilíbrio onde nenhum tinha que existir. Procuram a noite, o negrume, a escuridão, o frio, a treva. Maldizem a vida que vem do Sol e olham com desprezo para qualquer beleza que não a da noite. Idolatram estrelas e lua, parecendo oblívios à ironia de que a luz lunar que tão bela afirmam ser não passa de uma reflexão pálida da do Sol sobre uma superfície morta feita de cinzas.
Cruzes e pentagramas, uns para cima e outros para baixo, e uma miscelânea de ícones e símbolos adornam dedos, pescoços, pulsos e roupa. Bebem o que a ciência não explica com a sede de mil desertos, na esperança de se elevarem -- ou enterrarem, conforme a perspectiva -- mais que os outros, esses ignorantes que encontram prazer em se mover de dia e nada sabem de cultos para além das religiões corriqueiras.
Adoram o sobrenatural. O sobrenatural. Que pompa, que circunstância, que palavra tão sonora. Sonora e lamentavelmente ignorante. Como pode ser superior à Natureza algo que efectivamente existe nela? Não faz sentido.
Contudo, é uma palavra agradável.
...Faz-nos parecer mais poderosos.
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