Segunda-feira, Julho 11, 2005

Em vão.

Com um ar apreensivo, folheei atentamente as páginas daquele diário, um de muitos escritos por mim naqueles dias, e iniciei casualmente a leitura no relato de uma noite de Fevereiro de 2004.

O tempo presente dos verbos e a caligrafia deformada demonstravam com perfeita fidelidade quanto eu gostava de andar com o diário comigo e escrever imediatamente após cada acontecimento..

«
Já sinto isto há horas. Desde meio da tarde, quando soube quem estaria num determinado sítio durante a noite.

Uma inquietação, uma irritação. A distinta sensação de que algo ameaça quem me é querido. A urgência de intervir, de saltar para a linha da frente e travar os ataques que os ameaçam. Chamemos-lhe intuição, apesar de eu preferir não dar nomes a semelhantes coisas e limitar-me a agir de acordo. Sei o que sinto e quando o sinto, bem como o que significa, e tento dar a melhor resposta possível.

E então começa, com telefonemas em choro e vozes assustadas confirmando o presságio. A ameaça invisível toma forma e a pequena força de intervenção mobiliza-se imediata e determinadamente.

Mas quer o destino que nessa noite me seja relembrado o quão confiáveis são os meus recursos, com o meu mecenas habitual negando justificada mas inconvenientemente o uso do seu automóvel, e resta-me o uso dos espaçados transportes públicos nocturnos.

Saio de casa ao mesmo tempo que minhas parceiras saem da delas, e o triunvirato começa a mover-se em direcção ao epicentro do ataque, ao local onde as pobres crianças, que damos como amigas e nos dão como aliados, se encontram sob o ataque de insidiosas forças negras.

Com apenas 10 minutos disponíveis para cobrir a distância entre minha casa e a paragem, há que tomar todos os atalhos e abreviar ao máximo a travessia. Inicio-a de um salto, que me leva imediatamente da porta de casa até ao meio da rua, mas o impacto cobra um tributo indesejado ao meu tornozelo. Bem, paciência.

Corro, portanto, cheio de pressa. Corro rua acima, voo para lá do parque, atravesso mais ruas e galgo degraus. Corro de cabelo desgrenhado e casaco esvoaçante, sem me preocupar com o aspecto bom ou mau, à máxima velocidade que o pé tocado e os pulmões destreinados me permitem, corro até um passo menos bem medido me infligir uma dor aguda no outro calcanhar e roubar por momentos o equilíbrio. Começo a tombar para a frente, muito lentamente, e as luzes do carro que lá à frente descreve uma curva abrandam até quase deixar de avançar. O mundo abranda até quase se deter, à medida que a minha mente se abstrai por momentos do raciocínio consciente para se ocupar totalmente da análise da situação e recuperação do equilíbrio. Sem me aperceber de como o faço, determino em que estado ficaram os tendões e músculos, calculo instantaneamente o resultado de várias hipóteses de correcção, e decido um meio de evitar o acidente. Meio segundo, e um passo completo depois, tenho de novo o pé no chão colocado da forma certa para não pressionar demasiado a zona afectada e já vou bem lançado no próximo movimento. Sei que tive sorte e foi só um mau jeito, não fazendo qualquer dano permanente. Dois novos passos mais cuidadosos chegam para dissipar a dor e retomar a marcha com uma perda de velocidade mínima. Chegar a tempo é importante, e o meu corpo sabe-o bem.

Mas não consigo. O autocarro antecipa-se-me, deixando a paragem escassos segundos antes de eu lá chegar. Então os nervos assomam à flor da pele, acossados pela frustração e pela profunda irritação de estar especado numa paragem às 3 da manhã de uma noite húmida apenas 3 graus sobre o ponto de congelação.

Inversamente proporcional à temperatura ambiente, a do meu cérebro começa a fazer qualquer coisa ferver.

Primeiro quase torço um pé a sair de casa, depois mal evito uma queda aparatosa e por fim o autocarro foge-me por entre os dedos.

É demais. Começo então a interrogar-me sobre que raio estou eu ali a fazer, uma vez que qualquer das outras pessoas a caminho é, sozinha, capaz de resolver mil daquelas situações de uma vez. Por outro lado, talvez a súbita irritação não passe de uma qualquer manobra para manter longe a mim ou outra ajuda. Portanto persisto e aguardo, impacientemente, outro autocarro.

Já que alguma força invisível parece decidida em dificultar-me a vida, só me resta contrariá-la com toda a preserverança do bom Touro que sou.

»

Fechei o caderno com força.

Um ano depois, podia afirmar com certeza que mais valia ter ficado em casa e preferi não ler o resto do relato daquela noite, uma de tantas vindouras em que gastámos a nossa energia em vão para proteger quem na primeira oportunidade nos traiu.

É muito bonito correr em auxílio de toda a gente, mas o tempo que empatamos a ajudar certas pessoas mais indignas impede-nos por vezes de estar atentos às provações de outros, que não as apregoam aos sete ventos e talvez sejam mais sérias e meritórias.

Que nos sirva de lição.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Tipical.




Mael

Julho 18, 2005 7:23 PM  
Anonymous GRADEMASTER said...

Uma lição para toda a vida! Para a próxima estás quietinho e não mexez naquilo que não deves!

Janeiro 14, 2006 12:37 AM  

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