Quinta-feira, Abril 14, 2005

Frenesi

Mais uma noite de tédio.
Seis horas enfiado num sofá á espera que a discoteca fechasse, tendo como único companheiro o fiel copo de absinto.
Gabriel era arrastado para ali todos os santos sábados pela namorada, e todos esses santos sábados ele se sentava num sofá e tentava descobrir porque raio ali se ia meter.
Claro que chamar "única amiga" à bebida era um exagero, pois não eram poucas as caras conhecidas com que trocava uns dedos de prosa de quando em vez. Contudo, não chegava para afastar aquela sensação de não pertencer ali.

E cada noite ficava pior. Gabriel já aturava isto há uns meses valentes, sem vacilar, apenas porque não queria deixar sozinha a namorada que adorava aquele sítio.
Fazer o quê?
Quando se gosta tanto de alguém, este tipo de coisas acaba por não parecer nada de especial. Encontra-se consolo - ou justificação - numa data de pequenas coisas. O sítio em si era agradável (pena o ambiente pesado e cheio de fumo viciado), as pessoas até eram porreiras (as poucas de quem não mantinha distância), a música era boa (aquela que o DJ passava sempre no início da noite e as do final) e era o único bar onde serviam aquela bebida especial (pelo menos que ele tivesse perguntado).
E, quando tudo o resto falhava, os sofás até davam para passar pelas brasas (não amor não estou a dormir, estava só de olhos fechados a apreciar melhor a música).

O pior é que, por muito esfarrapadas e vãs as justificações, havia coisas que faziam tudo aquilo valer a pena. Os breves momentos em que a rapariga se juntava a ele, quente e suada de tanto dançar, o calor que emanava dela e permeava a pele dele, numa reconfortante comunhão de energia, a satisfação de estar presente junto de quem se gosta independentemente do lugar.
Gabriel era dessas pessoas para quem os detalhes valiam tão, tão mais que o todo. E os detalhes eram bons.

Assim, a noite acabava e ele esquecia.


...
Pelo menos a maior parte das vezes.
Aquela, porém, ia dar muito para o torto.

Dois fulanos aparentemente iguais a tantos outros, ou seja de tez doentia e corpo escanzelado enfiado numa parafernália de pano negro e variados adereços de metal, entraram no bar e tomaram as suas cervejas. Depois tomaram mais cervejas. Deram duas de dança na pista, voltaram ao bar e tombaram mais umas.
Quis o destino que Gabriel se encontrasse a dada altura no mesmo espaço fisico-temporal que um dos indivíduos, ou seja, no bar.

Estava tudo a correr muito bem, o jovem preparando-se para afogar meia de irritação num igualmente meio copo de vodka, Tia Maria e casca de laranja, quando uma mão de proveniência claramente estrangeira lhe entrou pelo bolso das calças dentro.
Virando-se bruscamente para encarar a dita proveniência, reparou no cenário desagradável, lá ao fundo, de um dos novos convidados a mexer nas coisas que o confiante Gabriel havia deixado no sofá.

E a escassos centímetros do seu rosto apresentava-se um problema mais premente.
- Oh c'lega, onde echtá o telemóbel.

Havia chatices e chatices.
Havia aqueles incómodos por que uma pessoa passava com um encolher de ombros, porque eram parte integrante de qualquer coisa inevitável, e havia outros cuja recompensa justificava a ordália.
Depois havia aqueles contratempos que além de perfeitamente escusados dão vontade de partir tudo num raio de vários quilómetros.

É quando esses contratempos sucedem que as pessoas no lugar, hora e intenção erradas descobrem quantos dentes conseguem engolir duma só vez.

...
Alertado pela bagunça no bar, o segundo fulano voltou-se para lá e deparou-se com o seu colega completamente esclarecido sobre a resistência de diversos tecidos humanos ao momento linear de punhos e joelhos em movimento de aceleração crescente.

E, falando em aceleração, havia um tipo evidentemente mal humorado a avançar na sua direcção. Sendo bem claro que a decisão e ímpeto de suas passadas se antecipavam a qualquer reflexo que alguém pudesse ter para o agarrar, o confronto era inevitável.

Foi então que um brilho prateado refulgiu no escuro. Vilão de rua mais experiente, não se deixaria surpreender nem derrotar por um gajo que naquela altura já devia estar aleviado dos seus valores.

Mas se Gabriel viu a faca, não fez caso. Com três passos de corrida aproximou-se, com outro saltou apoiado numa mesinha próxima, e com o pé livre apresentou a sua sola ao nariz do biltre que, com um golpe reflexo, ainda conseguiu cortar qualquer coisa em alguém ali perto.

...
Era a primeira vez que recorria daquela forma à violência, sem sequer tentar avisar os seus antagonistas. Os nervos de Gabriel haviam pura e simplesmente estalado, desencadeando uma furiosa explosão de raivas acumuladas. Apesar de estar no seu direito de auto defesa, talvez tivesse sido demasiado violento.
... Ou então isso era só a sua mente a racionalizar tudo, mais uma vez aleviando a culpa de quem o prejudica.

Questões morais à parte, Gabriel sabia que iria ser expulso dali. Mais ninguém parecia ter visto a tentativa de roubo e, para os espectadores, nada daquilo tinha sido mais que uma brutal desavença provocada por ele.
Os ladrões iriam receber cuidado hospitalar, a conta acabaria na sua caixa de correio, a namorada exigiria explicações pela conduta, e para cúmulo a sua entrada no bar ficaria concerteza proibida durante uns tempos.

... Talvez nem tudo fosse assim tão mau!

Contudo, e por mais prováveis que as previsões de Gabriel fossem, não contavam com o papel a desenrolar por alguém que ali estava de pé, com expressão severa e uma faca espetada na perna.

1 Comments:

Anonymous GradeMaster said...

É o que faz ser fiel à melhor noite do Porto! Por mais que nós queremos que a noite corra bem, hà sempre chatices, e não me refiro apenas a porrada! Outras chatices que acontecem também, se é que me compreendem!

Afinal de contas será que os gajos não aprendem? Porra, não estamos em nenhum sitio em que somos julgados por aquilo que possuímos, ou talvez sejamos, mas de qualquer maneira, politica à parte!

Esta é conhecida como a decisão da noite! A tal perguntinha que nos ronda sempre a cabeça: "Onde é que vamos hoje?". Pois. Se nos enfiamos num bar conhecido é sempre aquele tédio, já conhecemos logo não nos desperta aquela atenção, mas se for um lugar novo aí é diferente, é sempre aquela expectativa! Mas lá está! Para quê ir a um bar novo, que não conhecemos, quando temos o nosso habitual? Isto normalmente dá sempre em chatices!

Bares que eu frequento:

PH- Esmoriz
Sound Caffe- Paços de Brandão
Calix- Santa Maria de Lamas

Acreditem que são bares de gente bem disposta, e raramente existem chatices! É tudo pessoal conhecido, logo "ta-se" bem!

Abril 18, 2005 7:07 AM  

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