Quarta-feira, Abril 13, 2005

Ao balcão de um bar muito mal iluminado...

As coisas que as pessoas põem no pescoço. Quão adorável.

- Que é isto? – perguntei, de sorriso e olhar marotos. A dona do adereço em questão levantou o olhar para o espelho em frente, surpresa, e pousou no balcão negro um copo com o que restava de qualquer coisa suficientemente forte para dissolver uma maré negra. Fitou por um instante o meu reflexo, tentando talvez avaliar o estranho pela figura, mas o meu rosto estava meio encoberto por sombra e tomava aquele aspecto film-noir que tanto me agrada e obriga sempre os meus interlocutores a encarar-me directamente.

A minha aparição não era propriamente inesperada. Naquele sítio onde a maioria parece advocar a tristeza, a solidão e a miséria, encontrava-se pouco mais que uma massa uniforme de carne em busca de carne. Como pavões de luto, arrastando as negras penas pelo chão ou sacudindo-as pelos ares, em rituais de triste simplicidade e duvidoso empenho.

Ou pelo menos eu assim o via.

O estranho que atira a deixa e espera o milagre da aceitação da corte não é, de qualquer forma, nenhuma surpresa.

Porém, eu era mais que um pavão estúpido. As minhas visitas àquele lugar eram frequentemente de cariz lúdico sim, mas não do tipo que necessita de tirar a roupa.

Aquele pingente ao pescoço da jovem, por exemplo, parecia lá ter sido posto para implicar comigo.

Roçando-o muito ao de leve com o indicador, tomando cuidado para não tocar a pele branca exposta por um decote pronunciado nem exceder a duração ideal de semelhante gesto, disfrutei da tensão quase palpável que se gerou antes de recuar com o vagar adequado. A fronteira entre gesto indiscreto mas inocente e invasão descarada e de mau gosto é tão fina, que se fosse gume cortava metal. E como o gosto por um bom equilíbrio na proverbial lâmina de navalha sempre foi o meu fraco...

- Parece um dente. – acrescentei, ainda olhando o pequeno objecto de marfim branco, pontiagudo e ligeiramente arqueado. Depois, erguendo o olhar para fixar os seus olhos, mudei a expressão para algo um pouco menos inocente e com uma certa cumplicidade maldosa. – Ou uma presa.

Nesta altura ela podia ter decidido ir embora, decisão que eu naturalmente respeitaria apesar de todo o desagrado por me ver privado de semelhante entretém. Acima de tudo é preciso ser um cavalheiro. E talvez ela quisesse mesmo virar costas, não tivesse eu um aspecto tão distinto e uma pele tão suspeitosamente branca. Claro, metade dos frequentadores deste sítio enchem o rosto de base para clarear a pouca cor que têm e assim se perder melhor na turbe pálida, mas a minha interlocutora havia decerto reparado que o tom leitoso não se confinava ao rosto, mostrando-se à luz pálida do bar em todos os pedacinhos de pele do meu corpo. Ou pelo menos das mãos, que era o que se via para além da cara. Sim, eu parecia autêntico.

Claro que bem lá no fundo do meu coração inerte eu me sentia que nem um daqueles bichos que mudam de cor conforme o ambiente ao redor e a presa pretendida. Não deixava de ser um golpe baixo, toda essa produção e conversa fiada, mas se naquela noite eu buscasse um pouco de luta, não teria ido a um sítio daqueles.

Massagei com o polegar a ponta do indicador e cerrei o punho por uns momentos, casualmente, ao recolher a mão. Não fazia ideia do que pensava ela ser o efeito daquilo, mas decerto acreditava ter algum e seria engraçado estimular essa convicção para descobrir qual era.

E, julgando pelo olhar interessado com que dissimuladamente ela seguia a minha pantomina, eu diria que alguém tinha passado a acreditar – ou reforçado a fé - em amuletos e nas bruxas que os vendem.

- É um dente de vampiro. – anunciou então ela, com uma bem visível ponta de orgulho.

"Um vampiro com graves problemas ortodônticos”, observei em silêncio, atentando à forma e dimensões do dito com uma expressão de interesse capaz de ocultar por completo o desdém de meus pensamentos.

- Afasta os vampiros! – acrescentou ainda.

Muito bem, mas que noções tão úteis tinha aquela menina, acreditando em vampiros e em amuletos e em sabe Deus que mais. Aquilo estava quase a ficar sem piada nenhuma.

- Vampiros não existem. - contrariei, partilhando um facto científico tão sobejamente conhecido desde alturas da Inquisição. Um facto conhecido por toda a Humanidade salvo certas pessoas mais obstinadas e de variados graus de iluminação intelectual. Por momentos, quase senti pena dela e compreendi porque ia ali. Porque todos ali iam. Mesmo sem fazer uma ideia clara do significado das roupas e dos maneirismos, confundindo ou ignorando as noções que supostamente os guiavam, eles iam àquele sítio porque nas noites dali não eram os estranhos que o mundo olhava de lado sob o sol.

Ali ninguém se riria do amuleto que a criança trazia ao pescoço, nem de qualquer significado que tivesse.

- Existem sim! – respondeu, indignada. Como se atrevia o estranho a negar tal noção? Estivesse por ali uma colher de pau, ter-me-ia dado com ela nas unhas em castigo por tão grande blasfémia.

- Quer dizer, eu sei que não é um dente de vampiro verdadeiro... – continuou, procurando escamotear a crença sob uma máscara de racionalidade.

Tremendo com a ideia de ter uma coisa daquelas encravada entre os meus incisivos e pré-molares, apeteceu-me perguntar em tom de escárnio se tinha chegado sozinha àquela conclusão.

- ... é só a representação de um...

“Representação livre, muito livre mesmo.”

- ... mas o importante é o encantamento que tem.

- Protege-te de vampiros, não é.

- Exactamente!

- Estou a ver...

2 Comments:

Anonymous Akira said...

5 estrelas!

Para quando a continuação??

Apesar de não existirem... e com ou sem graves problemas ortodônticos notam-se influências puramente Malkavianas no teu texto :P

É por coisas destas e afins que se dá valor à diferença...

Keep the good worka!

Abril 13, 2005 5:47 PM  
Anonymous GradeMaster said...

Por entre as trevas do inferno, seja qual for a criatura, por mais maléfica que seja, não existe, pelo menos neste mundo diga-se! Pois, muitos são aqueles que acreditam, mas outros simplesmente pensam que isto é uma fantochada! Pois, muitas vezes não bem assim, já ouvi histórias e vi video cassetes de pôr os cabelos do cú em pé! Por isso digo-vos, só se acredita quem quer!

www.sabedoriamistica.com.br

Abril 13, 2005 11:35 PM  

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