Pulsações
O desconhecido extraiu com um gesto delicado a lâmina da própria perna, embrulhou-a num fino lenço negro e fê-la desaparecer dentro do fato. Gabriel notou a assinalável compostura do cavalheiro, surpreendido pela completa ausência de indicações de dor ou desconforto.
-- Um pequeno arranhão. -- sorriu ele e dirigiu-se calmamente ao bar, pousando um breve olhar amistoso em Gabriel antes de endurecer de novo a expressão e interpelar o dono do estabelecimento. Tinha uma segurança inabalável na postura e no rosto e elegância absoluta no porte. Era alto, magro, e exudava uma aura de autoconfiança perturbadora. As feições vincadamente mediterrânicas, o longo cabelo negro amarrado atrás, a bem aparada barba em redor da boca e o fato negro de riscas cinza, com ar de ter custado mais que todo o parque de estacionamento em frente, faziam-no parecer tirado de um filme de mafiosos. Tinha presença, como um predador engravatado.
Gabriel decidiu afastar o olhar e concentrar-se no adversário caído a seus pés, que gemia e tentava levantar-se. Esse fazia uma boa careta de dor, agarrado ao maxilar e evitando apoiar-se na perna esquerda. Vendo uma oportunidade de esclarecer a situação de forma rápida e simples, deu um passo atrás e falou:
-- Vais-te levantar e vais-me pousar nessa mesa -- indicou-a com o queixo -- tudo que gamaste esta noite. Tu e o teu colega. Depois vais-me dizer de quem são as coisas e se não faltar nada podes-te pôr a andar.
O ladrão gemeu de dor e indignação, os olhos aflitos dardejando pela sala mal iluminada e cheia de silhuetas negras. Era evidente que uma fuga graciosa estava fora de questão.
Ergueu-se a custo e esvaziou relutantemente os bolsos do blusão, pousando dois pequenos telemóveis e alguns fios metálicos sobre a mesa de café sem tirar os olhos de Gabriel, uma expressão belicosa misturando-se com o esgar de dor numa perfeita máscara de raiva.
Foi então que Gabriel viu a namorada. Lá ao fundo, para lá do arco e da rampa, na pista circular onde ainda ninguém se tinha apercebido da balbúrdia e todos continuavam a dançar ao som de London After Midnight. E alguém dançava com ela, demasiado próximo, demasiado íntimo. Era o mesmo que, momentos antes, lhe havia pago uma bebida e mantido uma animada conversa, parecendo inclusivamente ter mexido num dos fios que ela trazia ao pescoço. Era uma rapariga bonita que atraía frequentes olhares de cobiça e o ocasional avanço, a que Gabriel fazia sempre um esforço para não ligar. Havia do mesmo modo rejeitado o desagradável significado da cena convencendo-se de que ela tinha suficiente maturidade e respeito pelo namorado para saber manter à distância avanços menos próprios de outros. Era ciumento, mas respeitava a liberdade dela e procurava mantê-la o mais à vontade possível. Não a queria perder, mas não se sentiria satisfeito com uma namorada mentalmente amarrada e vendada. Precisava de alguém verdadeiro a seu lado, alguém que pudesse ter quem quisesse mas o escolhesse a ele. Como ele próprio.
Era uma relação de confiança delicada, feita de pequenas subtilezas, que não parecia estar a funcionar muito bem. Gabriel já tinha visto a sua namorada reencontrar velhos amigos e passar horas a conversar com eles, dando até o ocasional salto à pista de dança, mas aquilo era diferente. Aquilo era engate.
Engoliu em seco e afastou os olhos da pista, concentrando-se em terminar a situação com os larápios. Era preciso acordar um, proteger o outro contra a volátil hostilidade das pessoas em redor, e expulsá-los aos dois dali.
O cavalheiro anónimo prestou alguma assistência, revelando uma surpreendente facilidade em pegar no delinquente inconsciente e continuando a não evidenciar qualquer desconforto. Mas no que Gabriel mais reparou foi no pormenor de ele manter, disfarçadamente, um olho sempre na pista.
Terminada a tarefa, o estranho dirigiu-se-lhe no tom mais jovial que a voz grave e profunda permitia.
-- Os meus parabéns.
-- Desculpe?
-- Pela presença de espírito. Desarmou sozinho dois adversários de forma rápida e eficaz.
-- Ah. Obrigado... não foi nada. Aliás até foi rápido demais. Foi tão rápido que por pouco os outros não se apercebiam de que aqueles gajos eram ladrões e ia parecer que eu me tinha passado e começado uma luta sem mais nem menos.
-- Fez bem em avançar. Eu estava por perto e vi tudo, teria intercedido em sua defesa caso mais ninguém o fizesse. Sabe, é uma pena haver tão pouca gente disposta a defender-se hoje em dia.
Aquilo começava a soar a conversa de militante do Nacional Renovador e Gabriel encolheu os ombros.
-- Não foi nada. Agora, se não se importa, tenho que ir falar com uma pessoa.
-- Com certeza. Foi um prazer.
-- Igualmente.
E afastou-se, regressando à acanhada sala entre o bar e a pista, procurando a sua namorada.
Sentia comichão na nuca, sentia-se observado, e espreitando pelo canto do olho distinguia o desconhecido a olhar naquela direcção.
Gabriel lembrou-se de ter reparado na discreta fixação pela pista -- ou qualquer coisa lá -- e racionalizou que o alvo da atenção não deveria portanto ser ele próprio. Penetrando a massa de corpos suados, entrou na pista.
Pouco depois, no bar, uma figura alta e forte mas doentiamente pálida pagou e saiu. O desconhecido esperou uma pulsação e, silencioso, entregou uma nota alta ao barman e fez o mesmo.

