Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

Pulsações

(continuação de "Considerações")


O desconhecido extraiu com um gesto delicado a lâmina da própria perna, embrulhou-a num fino lenço negro e fê-la desaparecer dentro do fato. Gabriel notou a assinalável compostura do cavalheiro, surpreendido pela completa ausência de indicações de dor ou desconforto.
-- Um pequeno arranhão. -- sorriu ele e dirigiu-se calmamente ao bar, pousando um breve olhar amistoso em Gabriel antes de endurecer de novo a expressão e interpelar o dono do estabelecimento. Tinha uma segurança inabalável na postura e no rosto e elegância absoluta no porte. Era alto, magro, e exudava uma aura de autoconfiança perturbadora. As feições vincadamente mediterrânicas, o longo cabelo negro amarrado atrás, a bem aparada barba em redor da boca e o fato negro de riscas cinza, com ar de ter custado mais que todo o parque de estacionamento em frente, faziam-no parecer tirado de um filme de mafiosos. Tinha presença, como um predador engravatado.

Gabriel decidiu afastar o olhar e concentrar-se no adversário caído a seus pés, que gemia e tentava levantar-se. Esse fazia uma boa careta de dor, agarrado ao maxilar e evitando apoiar-se na perna esquerda. Vendo uma oportunidade de esclarecer a situação de forma rápida e simples, deu um passo atrás e falou:
-- Vais-te levantar e vais-me pousar nessa mesa -- indicou-a com o queixo -- tudo que gamaste esta noite. Tu e o teu colega. Depois vais-me dizer de quem são as coisas e se não faltar nada podes-te pôr a andar.
O ladrão gemeu de dor e indignação, os olhos aflitos dardejando pela sala mal iluminada e cheia de silhuetas negras. Era evidente que uma fuga graciosa estava fora de questão.
Ergueu-se a custo e esvaziou relutantemente os bolsos do blusão, pousando dois pequenos telemóveis e alguns fios metálicos sobre a mesa de café sem tirar os olhos de Gabriel, uma expressão belicosa misturando-se com o esgar de dor numa perfeita máscara de raiva.

Foi então que Gabriel viu a namorada. Lá ao fundo, para lá do arco e da rampa, na pista circular onde ainda ninguém se tinha apercebido da balbúrdia e todos continuavam a dançar ao som de London After Midnight. E alguém dançava com ela, demasiado próximo, demasiado íntimo. Era o mesmo que, momentos antes, lhe havia pago uma bebida e mantido uma animada conversa, parecendo inclusivamente ter mexido num dos fios que ela trazia ao pescoço. Era uma rapariga bonita que atraía frequentes olhares de cobiça e o ocasional avanço, a que Gabriel fazia sempre um esforço para não ligar. Havia do mesmo modo rejeitado o desagradável significado da cena convencendo-se de que ela tinha suficiente maturidade e respeito pelo namorado para saber manter à distância avanços menos próprios de outros. Era ciumento, mas respeitava a liberdade dela e procurava mantê-la o mais à vontade possível. Não a queria perder, mas não se sentiria satisfeito com uma namorada mentalmente amarrada e vendada. Precisava de alguém verdadeiro a seu lado, alguém que pudesse ter quem quisesse mas o escolhesse a ele. Como ele próprio.
Era uma relação de confiança delicada, feita de pequenas subtilezas, que não parecia estar a funcionar muito bem. Gabriel já tinha visto a sua namorada reencontrar velhos amigos e passar horas a conversar com eles, dando até o ocasional salto à pista de dança, mas aquilo era diferente. Aquilo era engate.
Engoliu em seco e afastou os olhos da pista, concentrando-se em terminar a situação com os larápios. Era preciso acordar um, proteger o outro contra a volátil hostilidade das pessoas em redor, e expulsá-los aos dois dali.
O cavalheiro anónimo prestou alguma assistência, revelando uma surpreendente facilidade em pegar no delinquente inconsciente e continuando a não evidenciar qualquer desconforto. Mas no que Gabriel mais reparou foi no pormenor de ele manter, disfarçadamente, um olho sempre na pista.
Terminada a tarefa, o estranho dirigiu-se-lhe no tom mais jovial que a voz grave e profunda permitia.
-- Os meus parabéns.
-- Desculpe?
-- Pela presença de espírito. Desarmou sozinho dois adversários de forma rápida e eficaz.
-- Ah. Obrigado... não foi nada. Aliás até foi rápido demais. Foi tão rápido que por pouco os outros não se apercebiam de que aqueles gajos eram ladrões e ia parecer que eu me tinha passado e começado uma luta sem mais nem menos.
-- Fez bem em avançar. Eu estava por perto e vi tudo, teria intercedido em sua defesa caso mais ninguém o fizesse. Sabe, é uma pena haver tão pouca gente disposta a defender-se hoje em dia.
Aquilo começava a soar a conversa de militante do Nacional Renovador e Gabriel encolheu os ombros.
-- Não foi nada. Agora, se não se importa, tenho que ir falar com uma pessoa.
-- Com certeza. Foi um prazer.
-- Igualmente.

E afastou-se, regressando à acanhada sala entre o bar e a pista, procurando a sua namorada.
Sentia comichão na nuca, sentia-se observado, e espreitando pelo canto do olho distinguia o desconhecido a olhar naquela direcção.
Gabriel lembrou-se de ter reparado na discreta fixação pela pista -- ou qualquer coisa lá -- e racionalizou que o alvo da atenção não deveria portanto ser ele próprio. Penetrando a massa de corpos suados, entrou na pista.

Pouco depois, no bar, uma figura alta e forte mas doentiamente pálida pagou e saiu. O desconhecido esperou uma pulsação e, silencioso, entregou uma nota alta ao barman e fez o mesmo.

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

Considerações

(continuação de "Ao balcão de um bar muito mal iluminado" e "Frenesi")


«
Não posso dizer que tenha achado o sítio demasiado estranho. Não, de todo. Aliás, como podia ser estranho um sítio onde parecem tão semelhantes uns aos outros? Será, talvez, um sítio “normal” para aqueles que lá se movem. Cada mancebo igual a todos os outros, cada donzela a todas as demais. Poder pelo número? Conforto entre iguais? Ignoro. Mas andar por lá era de facto desorientador. Pergunto-me até este momento como distinguirá um desses rapazes qual das duas meninas de costas é a sua namorada. Subtis diferenças na cor do cabelo? Tabuletas?
Claro que em certa medida isto sou só eu a ser deliberadamente desagradável. Como é evidente, lá dentro não são todos todos iguais. É frequentemente possível distinguir indivíduos quando se ignora o que vai saindo daquelas bocas e examina certos detalhes da indumentária.

De qualquer forma lá estava eu, movido pela curiosidade que acompanha as tarefas em ambientes estranhos. Uma vez encarregue de vigiar um certo parasita, não perdia nada em observar os seus hábitos e, onde tão adequado quanto possível, talvez até os experimentar.
Ali estava então, portanto, ali naquela pequena catacumba. Não que passasse completamente despercebido, pois ao negro tão oficial da minha farpela faltava a comum parafernália de adornos em couro ou metal – diferença que acabava sempre por chamar alguma atenção.
Mas lá fui conseguindo algum sossego, pelo menos até alguém vir a cambalear de algum inferno etílico e espetar o focinho imundo no meu Armani. Um trecho de música apanhou então o meu ouvido: “My wounds cry for the grave / my soul cries for deliverance”, cantava a voz de uma banda qualquer, e nos olhos embriagados do encharcado espectro reflectia-se um abandono bem relacionável com os versos que ouvia. Balbuciando desculpas com a articulação vocal de um mongolóide enquanto se apoiava em mim para não cair, agarrou-me o braço com força. Senti o sangue prestes a afluir de emergência aos membros quando o brilho metálico de garras refulgiu na ponta de vários dos seus dedos.
Afastando o medo irracional com a certeza lógica de que tudo não passava de baratos e rombos adereços da moda, de que não me poderiam fazer qualquer mal, lá evitei transformar o infeliz em farrapos - e a consequentemente necessária tragédia colectiva para encobrir o incidente.
Claro que nada disto transparecera aos olhos toldados do meu interlocutor. Em toda a sinceridade de quem é comandado por uma mente que o álcool faz fascinar por todo e qualquer pormenor, apenas lhe interessava certificar-se de que não havia causado mal nenhum com o seu desequilíbrio. Não que me irrite pedirem-me desculpa dez vezes, mas a atenção que atraía era muito desagradável. Os seus olhos continuvam a fitar os meus, procurando receosa mas ansiosamente traços de desagrado. Olhei-os profundamente e sussurrei, mais com a mente que com a boca, “que não fazia mal... que ele podia ir à sua vida... que pedisse um copo de água e sentir-se-ia como novo”.
E lá foi ele, análogo a um daqueles autómatos tão populares na minha juventude.

I want to diiieeee” -- berrava a voz no sistema de som, o espectro sonoro posto todo à sua disposição pelo momentâneo silêncio dos instrumentos da banda. Na pista de dança, gestos bem elucidativos evidenciavam o quanto tal afirmação agradava à mole humana.
Acompanhavam o brado, abanando as cabeças com uma violência que eu juraria suficiente para desalojar os demónios que nelas habitam, uns interiorizando o desejo e outros procurando em tal afirmação o poder da energia que coisas tão radicais trazem consigo. Outros simplesmente não deviam querer ficar atrás e erguiam também as suas vozes para dizer algo que não sentiam, sem se assustar pelo macabro conteúdo das palavras.
Ridículo.
Jovens, todos eles, nenhum dando a cada batimento do coração o devido valor. A morte não é real. A morte nunca é real, nem mesmo quando já se viu alguém expirar perante os próprios olhos. A morte é uma entidade abstracta, impossível de consciencializar -- e às suas consequências -- enquanto o coração bate e os pulmões respiram. Não, nenhum sabia muito bem o que dizia... Apontasse-lhes uma adaga ao peito e mudariam de ideias num segundo. Não se podem levar a sério. No entanto, um pequeno número de indivíduos é um caso diferente. As suas vidas não lhes agradam, fizeram escolhas que acreditam não poder reverter e acontecimentos foram postos em marcha que lhes levam a mente a dar início à espiral tenebrosa, à sequência de auto destruição.
Virei costas e dei um passo para longe da pista, mas subitamente algo surgiu em frente aos meus olhos. Era a imagem mental de um segundo antes, com a minha atenção toda concentrada num ponto pouco antes ignorado. Uma rapariga que abrandando a dança e fechando os olhos, um sorriso rasgado e sentido a crescer nos lábios.
A música prosseguiu. Voltei-me de novo para a pista, procurando o motivo do meu alarme, que encontrei subindo a rampa de acesso num passo pausado sem pressa nenhuma. Ao passar por mim, os seus sentimentos transbordavam e eu conseguia apanhá-los como a borboletas despreocupadas. Uma luz perdida voou da pista para apanhar o anel de um dedo seu e um reflexo instantâneo brilhou na minha direcção. Um anel em forma de lua, ornamentando um dedo de uma mão que acompanha o andar da sua dona e sobe, sobe... até encontrar o raio de luz que lhe estava destinado e, por um momento, unir-se a ele num objecto único, radiante, refulgente com luz própria. Mas a mão queria descer, e, quase relutantemente, o anel teve que acompanhar. O raio de luz continuava lá, à espera do próximo movimento ascendente, mas o anel desceu e apagou-se de vez. Tornou-se escuro e fundiu-se com as trevas de que se rodeava.
A analogia com o que os sentimentos captados me diziam é notável. Em dois segundos o anel contou-me a história da vida da sua dona. A história toda, pois dela não iriam haver novos episódios após uma noite à qual não pretendia sobreviver. Contudo, parecia tão tranquila. Não se havia embebedado ou parecido aproveitar para últimas loucuras. Uma das borboletas que voou da sua cabeça disse-me que essa era uma decisão há muito ponderada, que perdeu o tom extraordinário. Como se deixar este mundo não fosse senão o próximo compromisso casualmente marcado numa agenda muito normal.

Não percebo estas criaturas.
Foi-lhes dado um mundo de luz e de calor, um mundo sem predadores e praticamente sem perigos, e que fazem eles? Afastam-se do sol, maldizem suas vidas e martirizam-se apenas e só pelo próprio martírio. Seres atormentados, donos de vidas miseráveis, que procuram avidamente razão para o suplício deles de cada dia, criando caos e desequilíbrio onde nenhum tinha que existir. Procuram a noite, o negrume, a escuridão, o frio, a treva. Maldizem a vida que vem do Sol e olham com desprezo para qualquer beleza que não a da noite. Idolatram estrelas e lua, parecendo oblívios à ironia de que a luz lunar que tão bela afirmam ser não passa de uma reflexão pálida da do Sol sobre uma superfície morta feita de cinzas.
Cruzes e pentagramas, uns para cima e outros para baixo, e uma miscelânea de ícones e símbolos adornam dedos, pescoços, pulsos e roupa. Bebem o que a ciência não explica com a sede de mil desertos, na esperança de se elevarem -- ou enterrarem, conforme a perspectiva -- mais que os outros, esses ignorantes que encontram prazer em se mover de dia e nada sabem de cultos para além das religiões corriqueiras.
Adoram o sobrenatural. O sobrenatural. Que pompa, que circunstância, que palavra tão sonora. Sonora e lamentavelmente ignorante. Como pode ser superior à Natureza algo que efectivamente existe nela? Não faz sentido.
Contudo, é uma palavra agradável.

...Faz-nos parecer mais poderosos.
»

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Em vão.

Com um ar apreensivo, folheei atentamente as páginas daquele diário, um de muitos escritos por mim naqueles dias, e iniciei casualmente a leitura no relato de uma noite de Fevereiro de 2004.

O tempo presente dos verbos e a caligrafia deformada demonstravam com perfeita fidelidade quanto eu gostava de andar com o diário comigo e escrever imediatamente após cada acontecimento..

«
Já sinto isto há horas. Desde meio da tarde, quando soube quem estaria num determinado sítio durante a noite.

Uma inquietação, uma irritação. A distinta sensação de que algo ameaça quem me é querido. A urgência de intervir, de saltar para a linha da frente e travar os ataques que os ameaçam. Chamemos-lhe intuição, apesar de eu preferir não dar nomes a semelhantes coisas e limitar-me a agir de acordo. Sei o que sinto e quando o sinto, bem como o que significa, e tento dar a melhor resposta possível.

E então começa, com telefonemas em choro e vozes assustadas confirmando o presságio. A ameaça invisível toma forma e a pequena força de intervenção mobiliza-se imediata e determinadamente.

Mas quer o destino que nessa noite me seja relembrado o quão confiáveis são os meus recursos, com o meu mecenas habitual negando justificada mas inconvenientemente o uso do seu automóvel, e resta-me o uso dos espaçados transportes públicos nocturnos.

Saio de casa ao mesmo tempo que minhas parceiras saem da delas, e o triunvirato começa a mover-se em direcção ao epicentro do ataque, ao local onde as pobres crianças, que damos como amigas e nos dão como aliados, se encontram sob o ataque de insidiosas forças negras.

Com apenas 10 minutos disponíveis para cobrir a distância entre minha casa e a paragem, há que tomar todos os atalhos e abreviar ao máximo a travessia. Inicio-a de um salto, que me leva imediatamente da porta de casa até ao meio da rua, mas o impacto cobra um tributo indesejado ao meu tornozelo. Bem, paciência.

Corro, portanto, cheio de pressa. Corro rua acima, voo para lá do parque, atravesso mais ruas e galgo degraus. Corro de cabelo desgrenhado e casaco esvoaçante, sem me preocupar com o aspecto bom ou mau, à máxima velocidade que o pé tocado e os pulmões destreinados me permitem, corro até um passo menos bem medido me infligir uma dor aguda no outro calcanhar e roubar por momentos o equilíbrio. Começo a tombar para a frente, muito lentamente, e as luzes do carro que lá à frente descreve uma curva abrandam até quase deixar de avançar. O mundo abranda até quase se deter, à medida que a minha mente se abstrai por momentos do raciocínio consciente para se ocupar totalmente da análise da situação e recuperação do equilíbrio. Sem me aperceber de como o faço, determino em que estado ficaram os tendões e músculos, calculo instantaneamente o resultado de várias hipóteses de correcção, e decido um meio de evitar o acidente. Meio segundo, e um passo completo depois, tenho de novo o pé no chão colocado da forma certa para não pressionar demasiado a zona afectada e já vou bem lançado no próximo movimento. Sei que tive sorte e foi só um mau jeito, não fazendo qualquer dano permanente. Dois novos passos mais cuidadosos chegam para dissipar a dor e retomar a marcha com uma perda de velocidade mínima. Chegar a tempo é importante, e o meu corpo sabe-o bem.

Mas não consigo. O autocarro antecipa-se-me, deixando a paragem escassos segundos antes de eu lá chegar. Então os nervos assomam à flor da pele, acossados pela frustração e pela profunda irritação de estar especado numa paragem às 3 da manhã de uma noite húmida apenas 3 graus sobre o ponto de congelação.

Inversamente proporcional à temperatura ambiente, a do meu cérebro começa a fazer qualquer coisa ferver.

Primeiro quase torço um pé a sair de casa, depois mal evito uma queda aparatosa e por fim o autocarro foge-me por entre os dedos.

É demais. Começo então a interrogar-me sobre que raio estou eu ali a fazer, uma vez que qualquer das outras pessoas a caminho é, sozinha, capaz de resolver mil daquelas situações de uma vez. Por outro lado, talvez a súbita irritação não passe de uma qualquer manobra para manter longe a mim ou outra ajuda. Portanto persisto e aguardo, impacientemente, outro autocarro.

Já que alguma força invisível parece decidida em dificultar-me a vida, só me resta contrariá-la com toda a preserverança do bom Touro que sou.

»

Fechei o caderno com força.

Um ano depois, podia afirmar com certeza que mais valia ter ficado em casa e preferi não ler o resto do relato daquela noite, uma de tantas vindouras em que gastámos a nossa energia em vão para proteger quem na primeira oportunidade nos traiu.

É muito bonito correr em auxílio de toda a gente, mas o tempo que empatamos a ajudar certas pessoas mais indignas impede-nos por vezes de estar atentos às provações de outros, que não as apregoam aos sete ventos e talvez sejam mais sérias e meritórias.

Que nos sirva de lição.

Domingo, Junho 19, 2005

Adeus tempo livre

Oh desgraça, oh infortúnio.

Que será de mim, pois encontrei o último dos cds e assim completei o conjunto necessário para instalar o Neverwinter Nights de novo.
Tou tramado.

Sexta-feira, Abril 15, 2005

Dica de informática #05001

Se olhar para o monitor lhe faz lembrar as aulas de biologia com microscópio, provavelmente estará na hora de o limpar.

NOTA - Caso os corpos observados andem sozinhos, poderá ser necessário chamar uma equipa de desinfestação ou mesmo um padre.

Quinta-feira, Abril 14, 2005

Frenesi

Mais uma noite de tédio.
Seis horas enfiado num sofá á espera que a discoteca fechasse, tendo como único companheiro o fiel copo de absinto.
Gabriel era arrastado para ali todos os santos sábados pela namorada, e todos esses santos sábados ele se sentava num sofá e tentava descobrir porque raio ali se ia meter.
Claro que chamar "única amiga" à bebida era um exagero, pois não eram poucas as caras conhecidas com que trocava uns dedos de prosa de quando em vez. Contudo, não chegava para afastar aquela sensação de não pertencer ali.

E cada noite ficava pior. Gabriel já aturava isto há uns meses valentes, sem vacilar, apenas porque não queria deixar sozinha a namorada que adorava aquele sítio.
Fazer o quê?
Quando se gosta tanto de alguém, este tipo de coisas acaba por não parecer nada de especial. Encontra-se consolo - ou justificação - numa data de pequenas coisas. O sítio em si era agradável (pena o ambiente pesado e cheio de fumo viciado), as pessoas até eram porreiras (as poucas de quem não mantinha distância), a música era boa (aquela que o DJ passava sempre no início da noite e as do final) e era o único bar onde serviam aquela bebida especial (pelo menos que ele tivesse perguntado).
E, quando tudo o resto falhava, os sofás até davam para passar pelas brasas (não amor não estou a dormir, estava só de olhos fechados a apreciar melhor a música).

O pior é que, por muito esfarrapadas e vãs as justificações, havia coisas que faziam tudo aquilo valer a pena. Os breves momentos em que a rapariga se juntava a ele, quente e suada de tanto dançar, o calor que emanava dela e permeava a pele dele, numa reconfortante comunhão de energia, a satisfação de estar presente junto de quem se gosta independentemente do lugar.
Gabriel era dessas pessoas para quem os detalhes valiam tão, tão mais que o todo. E os detalhes eram bons.

Assim, a noite acabava e ele esquecia.


...
Pelo menos a maior parte das vezes.
Aquela, porém, ia dar muito para o torto.

Dois fulanos aparentemente iguais a tantos outros, ou seja de tez doentia e corpo escanzelado enfiado numa parafernália de pano negro e variados adereços de metal, entraram no bar e tomaram as suas cervejas. Depois tomaram mais cervejas. Deram duas de dança na pista, voltaram ao bar e tombaram mais umas.
Quis o destino que Gabriel se encontrasse a dada altura no mesmo espaço fisico-temporal que um dos indivíduos, ou seja, no bar.

Estava tudo a correr muito bem, o jovem preparando-se para afogar meia de irritação num igualmente meio copo de vodka, Tia Maria e casca de laranja, quando uma mão de proveniência claramente estrangeira lhe entrou pelo bolso das calças dentro.
Virando-se bruscamente para encarar a dita proveniência, reparou no cenário desagradável, lá ao fundo, de um dos novos convidados a mexer nas coisas que o confiante Gabriel havia deixado no sofá.

E a escassos centímetros do seu rosto apresentava-se um problema mais premente.
- Oh c'lega, onde echtá o telemóbel.

Havia chatices e chatices.
Havia aqueles incómodos por que uma pessoa passava com um encolher de ombros, porque eram parte integrante de qualquer coisa inevitável, e havia outros cuja recompensa justificava a ordália.
Depois havia aqueles contratempos que além de perfeitamente escusados dão vontade de partir tudo num raio de vários quilómetros.

É quando esses contratempos sucedem que as pessoas no lugar, hora e intenção erradas descobrem quantos dentes conseguem engolir duma só vez.

...
Alertado pela bagunça no bar, o segundo fulano voltou-se para lá e deparou-se com o seu colega completamente esclarecido sobre a resistência de diversos tecidos humanos ao momento linear de punhos e joelhos em movimento de aceleração crescente.

E, falando em aceleração, havia um tipo evidentemente mal humorado a avançar na sua direcção. Sendo bem claro que a decisão e ímpeto de suas passadas se antecipavam a qualquer reflexo que alguém pudesse ter para o agarrar, o confronto era inevitável.

Foi então que um brilho prateado refulgiu no escuro. Vilão de rua mais experiente, não se deixaria surpreender nem derrotar por um gajo que naquela altura já devia estar aleviado dos seus valores.

Mas se Gabriel viu a faca, não fez caso. Com três passos de corrida aproximou-se, com outro saltou apoiado numa mesinha próxima, e com o pé livre apresentou a sua sola ao nariz do biltre que, com um golpe reflexo, ainda conseguiu cortar qualquer coisa em alguém ali perto.

...
Era a primeira vez que recorria daquela forma à violência, sem sequer tentar avisar os seus antagonistas. Os nervos de Gabriel haviam pura e simplesmente estalado, desencadeando uma furiosa explosão de raivas acumuladas. Apesar de estar no seu direito de auto defesa, talvez tivesse sido demasiado violento.
... Ou então isso era só a sua mente a racionalizar tudo, mais uma vez aleviando a culpa de quem o prejudica.

Questões morais à parte, Gabriel sabia que iria ser expulso dali. Mais ninguém parecia ter visto a tentativa de roubo e, para os espectadores, nada daquilo tinha sido mais que uma brutal desavença provocada por ele.
Os ladrões iriam receber cuidado hospitalar, a conta acabaria na sua caixa de correio, a namorada exigiria explicações pela conduta, e para cúmulo a sua entrada no bar ficaria concerteza proibida durante uns tempos.

... Talvez nem tudo fosse assim tão mau!

Contudo, e por mais prováveis que as previsões de Gabriel fossem, não contavam com o papel a desenrolar por alguém que ali estava de pé, com expressão severa e uma faca espetada na perna.

Quarta-feira, Abril 13, 2005

Ao balcão de um bar muito mal iluminado...

As coisas que as pessoas põem no pescoço. Quão adorável.

- Que é isto? – perguntei, de sorriso e olhar marotos. A dona do adereço em questão levantou o olhar para o espelho em frente, surpresa, e pousou no balcão negro um copo com o que restava de qualquer coisa suficientemente forte para dissolver uma maré negra. Fitou por um instante o meu reflexo, tentando talvez avaliar o estranho pela figura, mas o meu rosto estava meio encoberto por sombra e tomava aquele aspecto film-noir que tanto me agrada e obriga sempre os meus interlocutores a encarar-me directamente.

A minha aparição não era propriamente inesperada. Naquele sítio onde a maioria parece advocar a tristeza, a solidão e a miséria, encontrava-se pouco mais que uma massa uniforme de carne em busca de carne. Como pavões de luto, arrastando as negras penas pelo chão ou sacudindo-as pelos ares, em rituais de triste simplicidade e duvidoso empenho.

Ou pelo menos eu assim o via.

O estranho que atira a deixa e espera o milagre da aceitação da corte não é, de qualquer forma, nenhuma surpresa.

Porém, eu era mais que um pavão estúpido. As minhas visitas àquele lugar eram frequentemente de cariz lúdico sim, mas não do tipo que necessita de tirar a roupa.

Aquele pingente ao pescoço da jovem, por exemplo, parecia lá ter sido posto para implicar comigo.

Roçando-o muito ao de leve com o indicador, tomando cuidado para não tocar a pele branca exposta por um decote pronunciado nem exceder a duração ideal de semelhante gesto, disfrutei da tensão quase palpável que se gerou antes de recuar com o vagar adequado. A fronteira entre gesto indiscreto mas inocente e invasão descarada e de mau gosto é tão fina, que se fosse gume cortava metal. E como o gosto por um bom equilíbrio na proverbial lâmina de navalha sempre foi o meu fraco...

- Parece um dente. – acrescentei, ainda olhando o pequeno objecto de marfim branco, pontiagudo e ligeiramente arqueado. Depois, erguendo o olhar para fixar os seus olhos, mudei a expressão para algo um pouco menos inocente e com uma certa cumplicidade maldosa. – Ou uma presa.

Nesta altura ela podia ter decidido ir embora, decisão que eu naturalmente respeitaria apesar de todo o desagrado por me ver privado de semelhante entretém. Acima de tudo é preciso ser um cavalheiro. E talvez ela quisesse mesmo virar costas, não tivesse eu um aspecto tão distinto e uma pele tão suspeitosamente branca. Claro, metade dos frequentadores deste sítio enchem o rosto de base para clarear a pouca cor que têm e assim se perder melhor na turbe pálida, mas a minha interlocutora havia decerto reparado que o tom leitoso não se confinava ao rosto, mostrando-se à luz pálida do bar em todos os pedacinhos de pele do meu corpo. Ou pelo menos das mãos, que era o que se via para além da cara. Sim, eu parecia autêntico.

Claro que bem lá no fundo do meu coração inerte eu me sentia que nem um daqueles bichos que mudam de cor conforme o ambiente ao redor e a presa pretendida. Não deixava de ser um golpe baixo, toda essa produção e conversa fiada, mas se naquela noite eu buscasse um pouco de luta, não teria ido a um sítio daqueles.

Massagei com o polegar a ponta do indicador e cerrei o punho por uns momentos, casualmente, ao recolher a mão. Não fazia ideia do que pensava ela ser o efeito daquilo, mas decerto acreditava ter algum e seria engraçado estimular essa convicção para descobrir qual era.

E, julgando pelo olhar interessado com que dissimuladamente ela seguia a minha pantomina, eu diria que alguém tinha passado a acreditar – ou reforçado a fé - em amuletos e nas bruxas que os vendem.

- É um dente de vampiro. – anunciou então ela, com uma bem visível ponta de orgulho.

"Um vampiro com graves problemas ortodônticos”, observei em silêncio, atentando à forma e dimensões do dito com uma expressão de interesse capaz de ocultar por completo o desdém de meus pensamentos.

- Afasta os vampiros! – acrescentou ainda.

Muito bem, mas que noções tão úteis tinha aquela menina, acreditando em vampiros e em amuletos e em sabe Deus que mais. Aquilo estava quase a ficar sem piada nenhuma.

- Vampiros não existem. - contrariei, partilhando um facto científico tão sobejamente conhecido desde alturas da Inquisição. Um facto conhecido por toda a Humanidade salvo certas pessoas mais obstinadas e de variados graus de iluminação intelectual. Por momentos, quase senti pena dela e compreendi porque ia ali. Porque todos ali iam. Mesmo sem fazer uma ideia clara do significado das roupas e dos maneirismos, confundindo ou ignorando as noções que supostamente os guiavam, eles iam àquele sítio porque nas noites dali não eram os estranhos que o mundo olhava de lado sob o sol.

Ali ninguém se riria do amuleto que a criança trazia ao pescoço, nem de qualquer significado que tivesse.

- Existem sim! – respondeu, indignada. Como se atrevia o estranho a negar tal noção? Estivesse por ali uma colher de pau, ter-me-ia dado com ela nas unhas em castigo por tão grande blasfémia.

- Quer dizer, eu sei que não é um dente de vampiro verdadeiro... – continuou, procurando escamotear a crença sob uma máscara de racionalidade.

Tremendo com a ideia de ter uma coisa daquelas encravada entre os meus incisivos e pré-molares, apeteceu-me perguntar em tom de escárnio se tinha chegado sozinha àquela conclusão.

- ... é só a representação de um...

“Representação livre, muito livre mesmo.”

- ... mas o importante é o encantamento que tem.

- Protege-te de vampiros, não é.

- Exactamente!

- Estou a ver...